MARCO
-Acabou Marco e dessa vez é para sempre. Eu estava de costas para ela, de frente para as janelas de vidro da sala de estar da casa dos meus pais, as cortinas estavam abertas e isso possibilitava que eu prestasse atenção ao movimento enorme que se verificava sempre aquela hora do dia na avenida dos Combatentes. Ouvi-a falar, mas, pensei que fosse só mais uma discussão, mais um sermão e portanto o meu pensamento vagueava entre o clássico Benfica-Porto ao exagero nos shots da noite passada.E quando finalmente a Jacira acabou de falar, e eu ouvi pela milésima aquela frase e de seguida a porta a bater, pensei realmente que fosse "só mais uma separação".Não estava preocupado, pois já estamos nisso a quase quatro anos, e eu não daria mais de duas semanas, para que ela ou uma das suas amigas ligasse para mim a tentar uma reconciliação. Enquanto esse telefonema não acontecia, a minha vida decorria como sempre foi, faculdade, jogo de futsal no campo da rádio nacional, e claro, as noitadas como não podia deixar de ser.Quando saio para noite, ao contrário do que o que a Jacira pensa, não olho para outras raparigas, gosto dela, mas, acho que ainda sou muito novo para ter uma relação tão séria como a que ela quer levar. Saio, para me divertir, para ser sincero para beber e dançar, só isso. Sei muito bem que raparigas como a minha namorada, hoje em dia são contadas.Mas mesmo assim, sinto a necessidade de as vezes estar sozinho ou com os meus "cambas".Tenho noção de que as vezes exagero, mas no fim das contas tenho-na como minha, afinal são quatro anos.Decorridas duas semanas, nada de Jacira, nem telefonemas, nem mensagens, nem na net eu encontrava-a. Começava a achar estranho, e para ser sincero começava a preocupar-me com silêncio da minha "borboletinha"...
JACIRA
Parece-me que alguém não tinha reparado ainda que a sua "borboletinha" estava prestes a descobrir porquê que foram feitas as asas. Cá para mim, alguém não se tinha apercebido que borboletas não foram feitas para estarem presas numa gaiola e maltratadas; Muito pelo contrário. Eu tive quatro anos para voar, mas preferi manter-me fiel ao meu jardim, não voar alto, não sair da minha zona de conforto - que ultimamente só me tinha vindo a oferecer desconforto. Eu podia voar com as outras borboletas, mas preferi ficar. Depois de tanto tempo, não sei se ainda tenho tempo para "voar". Pela idade e maturidade que atingi tão rapidamente, a solução era me ocupar com algum outro objectivo da minha vida, e se tivesse de voltar a pousar, que fosse num novo jardim. Voos deliberados não eram permitidos. Magoada, sim; desnorteada, nem tanto; Inconsequente, de certeza que não.
A nova idade trazia consigo metamorfoses na minha vida. O meu corpo de mulher se tornava a cada dia mais atraente e consistente, e os meus sentimentos começavam a mudar. Nos anos passados, uma discussão dessas me faria soltar lágrimas até a cabeça explodir de dores de cabeça, e ligar dois dias depois para voltar para o meu "jardim". Alguma coisa havia mudado. A borboleta havia passado o prazo para ligar para se redimir, as lágrimas não soaram como das outras vezes, as intercessões das minhas amigas mais chegadas a favor da nossa reconciliação não causavam o mesmo efeito em mim. Eu havia mudado...Ottoniela Bezerra e Cláudio Kiala